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Xarias x Canguleiros, a rixa que dava até em morte na Natal do século retrasado

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Xarias x Canguleiros, a rixa que dava até em morte na Natal do século retrasado

Xarias x Canguleiros, a rixa que dava até em morte na Natal do século retrasado

— Vá tapar o nariz na casa da mãe, xarias! Era assim que eram recebidos todos aqueles que ousassem tapar o nariz quando passassem pelos bairros da Ribeira e das Rocas, em Natal. Apesar da catinga de mangue, cheiro de restos de comida e detritos caseiros que se espalhavam no ar, tapar o nariz para evitar a podridão era visto pelos moradores locais como uma afronta. Quem o fizesse, era melhor correr, pois saía do bairro expulso sob palavras pouco amigáveis e pedradas no quengo.

A palavra “xarias” era o xingamento supremo na cartilha dos palavrões. Significava o morador do bairro Cidade Alta, urbano, próspero, comedor de xaréu, peixe que era, na época, proibido à fome do humilde povo das Rocas e da Ribeira, que o pescava e ia vendê-lo no mercado da Cidade Alta.

Para a classe mais pobre sobrava outro tipo de peixe, o cangulo. Peixe miúdo, cheio de espinhas e comedor dos cocôs que boiavam livremente pelo Rio Potengi. Era o prato da resistência.

As duas tribos, de dois mundos completamente diferentes, se xingavam ente si dessa forma. Pergunte a algum parente mais antigo que morou por aquelas bandas o que significa as expressões “xarias” e “canguleiro” que ele vai te confirmar essa história. Talvez ele tenha até ouvido falar de brigas que resultaram em morte em tempos bem remotos.

A rixa era séria mesmo, um problema para a segurança pública da época. Não eram raros os casos de cacete, morte por faca e pedradas na cabeça. A Polícia Militar fazia rondas noturnas nas Rocas e o pau cantava nas costas dos moradores. Aquilo era visto sempre como vingança de xarias.

No livro Cabra das Rocas (1980), do jornalista Homero Homem, ele dá uma ideia do que se contava sobre o que acontecia em tempos passados nas Rocas. “Antes do meu nascimento, contavam, havia rixas tremendas nas Rocas. O cacete, a peixeira, a quicé afiada entravam nessas disputas que resultavam sempre em cabeças partidas e barrigas vazadas. Sangue, miolo e fezes servindo de repasto às mutucas enormes, principais beneficiárias daquelas escaramuças”.

Uma das frases que representava a rivalidade entre as classes sociais da época era a seguinte: “Em conversa de homem, xarias, mulher e menino ficam de fora”. O saudoso jornalista Ticiano Duarte, um xarias declarado, falecido em 2015, escreveu em artigo na Tribuna do Norte que essas rixas se passaram antes da segunda guerra, pois quando era menino, na década de 40, as rixas entre xarias e canguleiros já eram coisas do passado.

Voltando ao livro Cabra das Rocas, Homero Homem conta várias histórias que se passam nos bairros das Rocas e Ribeira, mas em um contexto não exatamente especificado em datas. No entanto, é em um fragmento da “Revista Illustrada” do Rio de Janeiro, edição de 26 de julho de 1879 que se consegue precisar a década exata em que acontecia o auge dessa rivalidade.

Fragmento da “Revista Illustrada”, do Rio de Janeiro, edição de 26 de julho de 1879. | Foto retirada do blog Tok de História.

Os “cangulos” ditos na nota eram os canguleiros das Rocas e da Ribeira e a data, veja só, 1879, quase 140 anos atrás.

ABC X AMÉRICA

Com o passar dos anos a rivalidade “Xarias x Canguleiros” foi ganhando novos contornos e invadiu o futebol. Em 29 de junho de 1915 foi fundado o time do ABC de Natal, primeiro clube de futebol registrado no RN. Logo que ficaram sabendo da fundação do clube, alguns rapazes da Cidade Alta logo trataram de fundar também seu time para fazer frente ao ABC; assim surgia o América Futebol Clube, aos 14 de julho do mesmo ano.

A primeira sede do ABC foi na Av. Rio Branco, por trás do antigo Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão. Como a sede ficava muito perto do bairro das Rocas, os rapazes do bairro Cidade Alta, fundadores do América, passaram a dizer que o ABC era time de canguleiro e os rapazes da Cidade Alta ficaram conhecidos como Xarias.

Hoje em dia essa alcunha é pouco usada no futebol local, mas ainda é possível ver tais nomes em faixas e bandeiras de torcidas oorganizadas. A rivalidade entre os times também permanece e, lamentavelmente, ainda são comuns cenas de violência, assim como ocorria há mais de um século entre os moradores da Cidade Alta, Rocas e Ribeira.

Torcida do América expõe faixa com o nome “Xarias da Cidade Alta”.

*Matéria atualizada as 10:17 do sábado (22/12).

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Diego Campelo

Sou jornalista com passagens por jornais impressos e online da capital potiguar e assessorias de comunicação de empresas públicas. Atualmente trabalho como assessor de imprensa. Instagram: @campelodiego1

2 Comentários

2 Comments

  1. Avatar

    Henrique Oliveira

    22 de dezembro de 2018 at 09:57

    Parabéns pela matéria! Americanos se achando desde o início…

    • Avatar

      Débora

      25 de dezembro de 2018 at 14:25

      Feliz Natal. Natal RG.Parabéns saudades.e parabéns. Jonalista.

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