Como era a rotina dos natalenses quando Natal participou da II Guerra » Todo Natalense
Conecte-se conosco

Como era a rotina dos natalenses quando Natal participou da II Guerra

Natal

Como era a rotina dos natalenses quando Natal participou da II Guerra

Como era a rotina dos natalenses quando Natal participou da II Guerra

Nos últimos dias a cidade do Natal conviveu com aviões sobrevoando a todo instante em seu espaço aéreo. Esteve em curso, entre 18 e 30 de novembro, a Cruzex 2018, um exercício operacional multinacional simulando uma guerra. O exercício chamou a atenção de entusiastas, provocou raiva em quem não gosta de barulho e causou até medo no interior do Estado, quando um avião supersônico ultrapassou a barreira do som em Caicó e as cidades da região ficaram apavoradas com o estrondo. Mas você sabe como era a rotina de Natal quando a cidade participou da II Guerra Mundial?

Saiba mais: Avião rompe barreira do som em Caicó e o povo quase morre de susto; ouça áudios

Se um exercício simulado de guerra deu tanto o que falar no último mês, imagine o frisson que era o fato da cidade participar de uma guerra de verdade na década de 1940. Como se sabe, durante a II Guerra a cidade de Parnamirim, região metropolitana de Natal, abrigou uma base aérea militar americana que recebeu cerca de 10 mil sodados. Esses soldados passaram a conviver nas casas dos natalenses, nos bares, nos cabarés, nas festas, ou seja, passaram a fazer parte da rotina dos potiguares.

Segundo Fred Nicolau, um dos maiores pesquisadores da II Guerra em Natal, a cidade conviveu por um determinado tempo com o medo de um ataque aéreo advindo dos países do Eixo (Itália, Japão e Alemanha). Mesmo antes do Brasil entrar oficialmente na guerra, alguns militares que já estavam instalados em Natal promoviam exercícios de guerra na cidade, treinando a população para que ela soubesse como se comportar em caso de bombardeio inimigo.

Durante o dia o natalense vivia a sua rotina normal de trabalho, estudo e todas as atividades normais de uma cidade, mas com o diferencial de ter americano espalhado por todo lado. “Existiam sirenes espalhadas pela cidade e quando elas tocavam as pessoas tinham que sair correndo para os abrigos públicos antiaéreos, que eram uns buracos que eles cavavam e as pessoas tinham que se jogar ali dentro até que a sirene parasse de tocar”, explica Fred Nicolau.

Link relacionado: O mistério em torno do único militar americano da II Guerra enterrado em Natal

O maior desses abrigos ficava na Praça Pio X, na Av. Deodoro da Fonseca. Esse abrigo foi soterrado e se encontra onde hoje é a Catedral Metropolitana de Natal. Segundo o historiador Lenine Pinto, em seu livro “Natal, USA”, havia outras dessas trincheiras a céu aberto – ou sapas, na linguagem militar – espalhadas na cidade. “Outras foram cavadas no terreno da futura Policlínica do Alecrim; no campo do ABC, atual shopping CCAB; e na ‘mata’ de Petrópolis entre a maternidade e a Rua Joaquim Fabrício”, conta Lenine na página 110 do seu livro.

A NOITE

Quando a noite caía, Natal era uma verdadeira solidão. As ruas ficavam desertas, as pessoas não podiam bater papo nas calçadas e havia um toque de recolher. A partir de determinado horário, todos tinham de entrar para suas casas, apagar as luzes e sequer a luz de uma vela podia irradiar para fora. Todos eram recomendados a colocar panos pretos nas janelas para que nada aparecesse. Natal virava uma verdadeira cidade fantasma. Havia também os blackouts, quando o fornecimento de energia da cidade era cortado e aí todos ficavam em um breu total, querendo ou não.

Os militares americanos tentavam fazer as pessoas viverem a todo instante acreditando no perigo constante de um bombardeio e elas realmente acreditaram por algum tempo, inclusive muita gente, por medo, mudou-se de Natal. Mas depois as pessoas começaram a relaxar e passaram a esquecer aquela tensão.

“Hoje a gente sabe que era tecnicamente impossível os alemães mandarem aviões atacarem a cidade, porque não existiam mais alemães na África a partir de 1943 e a chance de algum avião sair da Europa, atravessar o Atlântico e bombardear Natal era zero, ninguém tinha avião com essa autonomia, e se o avião conseguisse chegar não tinha como voltar. Mas eles [os americanos] nunca sabiam se algum dia os alemães podiam inventar algum avião que chegasse aqui. A ideia era colocar o pessoal na pilha, no clima de guerra mesmo”, comenta Nicolau.

A CONVIVÊNCIA COM OS AMERICANOS

Natalense servindo americanos em mesa de bar | Foto: Acervo Fundação Rampa

Segundo o pesquisador, a convivência com os norte-americanos foi quase 100% paz e amor. Todos queriam ter um amigo americano e havia até um certo interesse financeiro da população em relação aos amigos yankees. Mas é claro que existiram algumas poucas brigas de indivíduos, principalmente por causa de mulheres nos cabarés.

“Acontece que as mulheres cobravam mais caro dos americanos do que dos brasileiros e se elas estivessem na mesa com brasileiros e chegassem americanos, acontecia delas deixarem os brasileiros e irem sentar com os americanos, porque eles pagavam mais. Mas no geral foi uma boa convivência, todos queriam ter uma amigo americano, o clima geral era super de paz, de fazer amizade e de conseguir tirar alguma coisa deles. Era como o turista de hoje em dia: todo mundo quer vender um pacote de viagem, oferecer um serviço pra ganhar alguma coisa em troca”, afirma.

De modo geral, apesar do medo do início, a rotina era de muitas festas, amizades, namoros, até casamentos e de um boom econômico sem igual para Natal. Foi um período em que a cidade viveu do dinheiro que os americanos traziam, seja em obras em Natal e Parnamirim, ou mesmo do dinheiro gasto pelos americanos no comércio local, tornando-se uma época de ouro para se ganhar dinheiro.

Saiba mais: O que uma famosa loja de departamentos de Natal tem a ver com a II Guerra

Deixe um comentário
Diego Campelo

Sou jornalista com passagens por jornais impressos e online da capital potiguar e assessorias de comunicação de empresas públicas. Atualmente trabalho como assessor de imprensa. Instagram: @campelodiego1

Clique para comentar

Deixar uma Resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais em Natal

Popular

Publicidade
Topo