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Banido pelo Golpe de 64, método Paulo Freire será usado pela Prefeitura do Natal

Educação

Banido pelo Golpe de 64, método Paulo Freire será usado pela Prefeitura do Natal

Banido pelo Golpe de 64, método Paulo Freire será usado pela Prefeitura do Natal

O prefeito de Natal, Álvaro Dias, solicitou à Secretaria Municipal de Educação (SME) a construção de um projeto de alfabetização para jovens, adultos e idosos, de modo a atingir um universo maior de natalenses fora da faixa escolar. O método escolhido para o projeto, apresentado essa semana ao prefeito pela SME é baseado no método de Paulo Freire.

O último prefeito que fez algo parecido usando a pedagogia freireana em Natal foi expulso da Prefeitura, preso, exilado e morreu na embaixada do Uruguai. Esse prefeito foi Djalma Maranhão, que em sua gestão criou o programa “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”, por volta de 1961.

Inspirado no método Paulo Freire, o programa foi responsável pela construção de escolas, aulas de alfabetização para adultos e crianças e cursos de formação de professores. A pretensão era erradicar o analfabetismo em terras potiguares através de aulas de alfabetização ministradas em casas de palha com chão de terra batida.

O ousado programa, no entanto, não era bem visto pelos militares. Para se ter uma ideia, até a embaixada dos Estados unidos estava de olho no programa de Djalma Maranhão aqui em Natal. Tudo está registrado em um documento do Departamento de Estado Americano que data de 11 de março de 1964.

Saiba mais: Antes do Golpe, prefeito de Natal que investia em educação era observado pelos EUA

MÉTODO PAULO FREIRE

“A educação é um ato político, que pode contribuir para a transformação social e a libertação dos oprimidos (Freire, 1981)”. Esse pensamento de Paulo Freire era algo assustador para os poderosos da época. Vale destacar que o método criado por Paulo Freire tinha um viés politizador.

A ideia era fazer com que os alunos, em sua maioria adultos analfabetos, aprendessem a ler, mas também se politizassem. A discussão do pensamento crítico provocava desconforto nas classes que dominavam o país.

Um experimento feito por Paulo Freire na cidade de Angicos, por exemplo, foi classificado por fazendeiros como “praga comunista”. No processo de aprendizagem da experiência que ficou conhecida como “As 40 Horas de Angicos”, evento que despertou a curiosidade do mundo inteiro, os trabalhadores aprendiam palavras comuns a eles no dia a dia.

Quem trabalhava no campo aprendia a escrever palavras como “enxada”, “tijolo”, “terra”. E, à medida que os alunos fossem aprendendo, o pedagogo que fazia parte do grupo iniciava uma discussão mais crítica com os estudantes. Se o aluno aprendia a palavra “tijolo”, por exemplo, iniciava-se uma discussão do tipo: você usa tijolos para fazer uma casa, mas você tem uma casa própria? Por que não tem? E isso fazia o indivíduo pensar sobre sua condição social.

Saiba mais: A cidade do RN que teve 300 alfabetizados em 40 horas por método de Paulo Freire

O FIM DO PROGRAMA

Em 1964 teve início no Brasil a Ditadura Militar e o Método Paulo Freire foi totalmente banido no Brasil, inclusive, em Natal, o programa de Djalma Maranhão.

Paulo Freire foi expulso do Brasil e seu trabalho foi substituído pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), um projeto de alfabetização a partir de práticas tradicionais, como uso de cartilhas.

Rejeitado em seu próprio país, Freire percorreu mais de 50 nações ensinando nos mais importantes centros universitários internacionais, como a Universidade de Harvard.

Ele aplicou seu método de alfabetização em nações da Ásia, da África e da América Latina e também tornou-se Doutor Honoris Causa por 28 universidades. Além disso 26 centros de pesquisas em educação recebem o seu nome em países como Brasil, Itália, Chile, Bélgica e Estados Unidos.

NATAL, 2019

O município do Natal apresenta população de 803.739 pessoas e taxa de analfabetismo de 7,87%, representando quase 50 mil pessoas analfabetas na capital. O prefeito Álvaro Dias ressalta que o projeto de Alfabetização vai incluir pessoas analfabetas, que não tiveram acesso à alfabetização no tempo certo, estão fora da faixa escolar e também não participam das turmas da EJA.

“Através da perspectiva freiriana, iremos ampliar o desenvolvimento pessoal, social e intelectual das pessoas, bem como valorizar seus conhecimentos e suas experiências ao longo da vida”.

Paulo Freire, morto em 1997, deixou um vasto legado para a educação do mundo. Djalma Maranhão, que ousou aplicar esse método em uma época tão conturbada do Brasil, pagou com sua própria vida e liberdade. Natal, a partir de 2019, terá uma segunda chance, quase 60 anos depois, de erradicar o analfabetismo em cada canto da capital. É torcer que dessa vez tudo dê certo.

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Diego Campelo

Sou jornalista com passagens por jornais impressos e online da capital potiguar e assessorias de comunicação de empresas públicas. Atualmente trabalho como assessor de imprensa. Instagram: @campelodiego1

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